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sexta-feira, 30 de março de 2018

DOGMAS E ESPIRITISMO


Sempre aparecem os que buscam nas escolas religiosas tradicionais encontrar argumentos que possam utilizar contra a revolucionária proposta do Espiritismo. Um dos temas é sobre a Natureza do Cristo. Na edição de setembro de 1867, da REVISTA ESPÍRITA, Allan Kardec argumenta sobre a questão. Escreve ele: - O Espiritismo não é contrário à crença dogmática relativa à natureza do Cristo e, neste caso, pode-se dizer o complemento do Evangelho, se o contradiz? A solução desta questão não toca apenas de maneira acessória o Espiritismo, que não deve preocupar-se com dogmas particulares de tal ou qual religião. Simples doutrina filosófica, não se apresenta como campeão, nem como adversário sistemático de nenhum culto, deixando a cada um a sua crença. A questão da natureza do Cristo é capital do ponto de vista cristão. Não pode ser tratada levianamente, e não são as opiniões pessoais, nem dos homens, nem dos Espíritos, que a podem decidir. Em assunto semelhante, não basta afirmar ou negar, é preciso provar. Ora, de todas as razões alegadas a favor ou contra, nenhuma há que não seja mais ou menos hipotética, visto que todas são questionáveis. Os materialistas não viram a coisa senão com os olhos da incredulidade e a ideia preconcebida da negação; os teólogos, com os olhos da fé cega, e a ideia preconcebida da afirmação; nem uns, nem outros estavam em condições necessárias de imparcialidade; interessados em sustentar sua opinião, só viram e buscaram o que a ela poderia ser contrário. Se, desde que a questão foi agitada, ainda não foi resolvida de maneira peremptória, é que faltaram elementos, os únicos que lhe podiam dar a chave, absolutamente como faltava aos sábios da antiguidade o conhecimento das leis da luz, para explicar o fenômeno do arco-íris. O Espiritismo é neutro nesta questão; não está mais interessado numa solução do que na outra; marchou sem isto e marchará ainda, seja qual for o resultado; colocado fora dos dogmas particulares, não é para ele questão de vida ou de morte. Quando a abordar, apoiando todas as suas teorias nos fatos, resolvê-la-á pelos fatos, e em tempo oportuno; se tivesse urgência, ela já estaria resolvida. Os elementos de uma solução hoje estão completos, mas o terreno ainda não está preparado para receber a semente. Uma solução prematura, fosse qual fosse, encontraria muita oposição de parte a parte, e o Espiritismo perderia mais partidários do que os conquistaria. Eis por que a prudência nos impõe o dever de nos abstermos de toda polêmica sobre o assunto, até que estejamos certos de poder colocar o pé em terra firme. Enquanto se espera, deixemos que discutam os prós e os contras fora do Espiritismo, sem nisto tomar parte, deixando que os dois partidos esgotem seus argumentos. Quando o momento for propício, levaremos para a balança, não a nossa opinião pessoal, que não tem nenhum peso, nem pode fazer lei, mas fatos até este momento não observados, e então cada um pode julgar com conhecimento de causa. Tudo quanto podemos dizer, sem prejulgar a questão, é que a solução, em qualquer sentido em que for dada, não contradirá nem os atos, nem as palavras do Cristo, mas, ao contrário, os confirmará, elucidando-os. Portanto, aos que nos perguntam o que diz o Espiritismo sobre a natureza do Cristo, respondemos invariavelmente: “É uma questão de dogma, estranha ao objetivo da Doutrina.” O objetivo que todo espírita deve perseguir, se quiser merecer esse título, é o seu próprio melhoramento moral. Sou melhor do que o era? Corrigi-me de algum defeito? Fiz o bem ou o mal ao próximo? Eis o que todo espírita sincero e convicto deve se perguntar. Que importa saber se o Cristo era Deus, ou não, se se é sempre egoísta, orgulhoso, ciumento, invejoso, colérico, maledicente, caluniador? A melhor maneira de honrar o Cristo é imitá-lo em sua conduta. Fazendo o contrário do que ele diz, quanto mais se o eleva no pensamento, menos se é digno dele e mais se o insulta e profana. O Espiritismo diz aos seus adeptos: “Praticai as virtudes recomendadas pelo Cristo e sereis mais cristãos do que muitos que se fazem passar como tais.” Aos católicos, protestantes e outros, ele diz: “Se temeis que o Espiritismo perturbe a vossa consciência, não vos ocupeis dele.” Dirige-se apenas aos que a ele vêm livremente, e dele necessitam. Não se dirige aos que têm uma fé qualquer e que esta fé basta, mas aos que não a têm ou que duvidam, e lhes dá a crença que lhes falta, não mais particularmente a do catolicismo, do protestantismo, do judaísmo ou do islamismo, mas a crença fundamental, base indispensável de toda religião. Aí termina o seu papel. Estabelecida esta base, cada um é livre para seguir a rota que melhor satisfaça à sua razão.

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