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sexta-feira, 12 de outubro de 2012

VOLQUIMAR



Os ponteiros do relógio aproximavam-se das nove horas da manhã daquela sexta-feira, primeiro de setembro de 1974, quando o ritmo frenético de um dos pontos de maior movimentação da região central da capital paulista experimentou uma mudança radical. Isto porque de janelas situadas num dos pontos mais altos de moderno edifício situado na confluência das avenidas 23 de Maio e 9 de Julho com o famoso Vale do Anhangabaú, irrompiam as primeiras labaredas daquele que foi um dos maiores incêndios ocorridos na maior das metrópoles da América Latina. O Edifício Joelma, com seus 26 andares, abrigava em seu espaço interno inúmeras empresas, que, por sua vez, absorviam expressivo número de funcionários. O expediente se iniciava, e a surpresa da ocorrência resultou na morte de dezenas de pessoas, embora, felizmente, muitas vidas tenham sido salvas por encontrarem-se abaixo do andar onde se iniciou o sinistro. As que  estavam nos andares acima, como que empurradas pelo fogaréu e pela fumaça, subiam pelas escadas até o topo do prédio, na ideia que se repetiria o mesmo processo de resgate do Edifício Andraus, dois anos antes, também na capital paulista, em que inúmeras pessoas foram salvas por helicópteros. O Joelma, no entanto, não possuía Heliporto e a alta temperatura emanada do incêndio impossibilitavam a aproximação dos veículos aéreos. No alto, os que lá conseguiram chegar, corriam desorientados, fugindo das chamas aterradoras e rolos de fumaça que a todos intoxicava. No desespero para salvar-se, na confusão generalizada, corpos eram pisados ou, quais tochas vivas, impiedosamente, carbonizados. Alguns, num misto de dor e desespero, pularam da altura para estatelar-se no chão, perto do povo que, assustado, acompanhava a tragédia, entre atônito e inerme. Oficialmente, 188 pessoas morreram em consequência do incêndio e mais de 300 ficaram feridas com maior ou menor gravidade. Dentre as vítimas fatais, duas ressurgiriam meses depois através do médium Chico Xavier, já que, em momentos diferentes, familiares dos mesmos se dirigiram a Uberaba (MG), na ânsia de obter algum tipo de informação ou esclarecimento sobre a tragédia.  Não eram seguidores do Espiritismo, tendo crescido sob a orientação do Catolicismo, ao qual seguiam dentro do convencionalismo da maioria. A primeira iniciativa foi da mãe de Volquimar Carvalho dos Santos, desencarnada com apenas 21 anos. Oriunda de Pirassununga (SP), onde se formara professora primária em 1969, mudara-se pouco tempo depois com a mãe e dois irmãos para São Paulo, onde, indicada pelo irmão, quatro meses antes, passara a trabalhar na mesma empresa que ele, no vigésimo terceiro andar do edifício enquanto ele trabalhava nos primeiros andares. Na véspera da sua morte, Volqui – como era chamada – faltara no serviço para preparar a documentação necessária à matrícula na Universidade de São Paulo, em cujos vestibulares havia sido aprovada para o curso de Letras. Na maratona para encontrar o corpo da jovem que não se sabia ainda vitima fatal do incêndio, sua mãe acompanhava as buscas no carro de um amigo que, solidário, se propusera a auxiliá-los. A Capital improvisara inúmeros postos para receber os corpos resgatados considerando-se a imprevisibilidade de uma ocorrência daquele porte. Uma fenômeno incomum, porém, marcaria essa angustiante peregrinação. A certo trecho, próximo ao IML, Volquimar, em Espírito, apareceu no carro à mãe, sem que os outros dois passageiros a vissem dizendo a ela: “-Mãe, o Álvaro já me achou e identificou o meu corpo”. Ante a negativa do filho que tentava poupar a mãe até encontrar a melhor forma para comunicar-lhe a triste notícia, o Espírito da filha acrescentou, sorrindo: “-Mamãe, ele já me encontrou sim, e está ocultando a verdade da senhora”.  Dona Walkyria apenas teve confirmada a certeza do falecimento da filha num Pronto-Socorro, onde, de imediato lhe foram ministrados sedativos. Conhecendo Chico apenas das apresentações dos programas PINGA-FOGO com ele realizados em julho e dezembro de 1971, Dona Walkyria, informada pelo genro que ele estaria em Araras(SP), no dia 10 de março de 1974, apenas 40 dias após a morte da filha, era a primeira da fila para abraça-lo. Informando ao médium o motivo de ali estar, foi aconselhada por ele aguardar o fim do evento de que participara para conversarem, o que fez, ouvindo Chico falar-lhe da filha, identificando-a por Volquimar – nome pouco comum -, sem nunca ter tido qualquer informação da moça. Dois meses depois, em novo encontro, agora em Uberaba, Chico em conversa informal, revela que o Espírito da filha contou-lhe que deixara em casa algo que permitiria a comunicação mediúnica entre ele e a mãe, que por sinal, negou a existência de qualquer coisa do tipo, o que se confirmaria depois com a localização de uma cartolina com letras e números, com as palavras sim, não e adeus, com pequeno cartão móvel acoplado. Mais dois meses passados e, em 13 de julho, finalmente, ocorre a psicografia da primeira carta, com Volquimar relatando sua versão pessoal da lamentável ocorrência. Recorda, a certo trecho: “- Como foi o inesperado? Muito difícil a revisão. Tudo aconteceu de repente, como se devêssemos todos naquela manhã obedecer, de um modo só, a ordem que vinha do mais Alto, a fim de que a gente trocasse de vida e corpo. Quando recebi o impacto da notícia do fogo, o tumulto fora da sala não era pequeno. O propósito de fazer com que o trabalho rendesse, habitualmente, nos isolava dos ruídos interiores. E o tempo de preservação possível havia passado. Atendi automaticamente ao impulso que nascia nos outros companheiros: descer à pressa. E fizemos isso. Elevadores não mais podiam aguardar-nos. A força elétrica sofrera a queda compreensível. Esforcei-me por atingi algum meio para a descida, mas isso se fazia impraticável. Com alguns poucos que me podiam ouvis, subimos apressadamente para os cimos do prédio. A esperança nos helicópteros estava em nossa cabeça, mas era muito difícil abraçar tantos para o regresso à rua com recursos tão poucos. Entendi tudo e orei. Orei como nunca, lembrando toda a vida num momento só, porque os minutos de expectativa eram para nós um prolongado instante de expectativa sempre menor. Tudo atravessei com a prece no coração. E, posso dizer a você, mãezinha querida, que um brando torpor me invadiu, pouco a pouco. O calor era demasiado para que fosse sentido por nós, especialmente por mim(...) Os Amigos Espirituais, destacando-se meu avo Álvaro, comigo durante todo o tempo, não me deixaram assinalar quaisquer violência, naturais numa ocasião como aquela(..) Mais tarde, com algumas horas de liberação do corpo, é que despertei ao seu lado”. A integra da carta, entre outras, com outros detalhes que confirmam de forma indiscutível a continuidade da vida, pode ser lida na obra SOMOS SEIS (geem). 

Um comentário:

  1. "...da manhã daquela sexta-feira, primeiro de fevereiro de 1974..." - é o texto correto.

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